sábado, 9 de abril de 2011

LIÇÃO 2

Eu tenho dado a tudo o que vejo nesse quarto (nessa rua, dessa janela, nesse lugar) todo o significado que tem para mim.

Os exercícios com essa idéia são os mesmos que os da primeira. Começa com as coisas que estão perto de ti, e aplica a idéia a qualquer coisa sobre a qual o teu olhar pousar. Depois, aumenta o âmbito para fora, vira a cabeça para incluir o que quer que esteja em qualquer um dos lados. Se possível, vira-te e aplica a idéia àquilo que estava atrás de ti. Continua sendo tão indiscriminado quanto for possível ao selecionar os sujeitos para a aplicação dessa idéia, não te concentres em anda em particular e não tentes incluir tudo o que vês em uma determinada área, ou introduzirás tensão.


Meramente dá uma olhada com naturalidade e razoável rapidez à tua volta, tentando evitar qualquer seleção por tamanho brilho, cor, material, ou relativa importância para ti. Considera os sujeitos simplesmente como os vires. Tenta aplicar o exercício com igual facilidade a um corpo ou a um botão, a uma mosca ou ao chão, a um braço ou a uma maçã. O único critério para a aplicação da idéia a qualquer coisa é meramente que os teus olhos a tenham tocado. Não tentes incluir coisa alguma em particular, mas certifica-te de que nada seja especificamente excluído.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

LIÇAO 1

Nada do que eu vejo nesse quarto (nessa rua, dessa janela, nesse lugar) significa coisa alguma.

Agora, olha vagarosamente à tua volta e pratica aplicando essa idéia, de modo muito específico, a qualquer coisa que vejas:

Essa mesa não significa nada.

Essa cadeira não significa nada.

Essa mão não significa nada.

Esse é não significa nada.

Essa caneta não significa nada.

Então, olha além do que o que está imediatamente à tua volta e aplica a idéia a um âmbito mais amplo:

Aquela porta não significa nada.

Aquele corpo não significa nada.

Aquela lâmpada não significa nada.

Aquele cartaz não significa nada.

Aquela sombra não significa nada.

Nota que estas declarações não estão agrupadas em nenhuma ordem e não fazem nenhuma distinção quanto às diferenças entre os tipos de coisas às quais são aplicadas. Esse é o propósito do exercício. A declaração deve ser meramente aplicada a qualquer coisa que vês. Ao praticares a idéia do dia, usa-a com total indiscriminação. Não tentes aplicá-la a tudo o que vês, pois estes exercícios não devem se tornar ritualísticos. Apenas certifica-te de que nada do que vês seja especificamente excluído. Qualquer coisa é como qualquer outra no que concerne à aplicação da idéia. Cada uma das três primeiras lições não deve ser praticada mais do que duas vezes por dia, de preferência pela manha e à noite. Também não se deve tentar fazê-las por mais de um minuto, aproximadamente, a menos que isso implique em uma sensação de pressa. Uma sensação confortável de lazer é essencial.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O SIGNIFICADO DOS MILAGRES

I.Princípio dos Milagres

1. Não há ordem de dificuldades em milagres. Um não é mais "difícil" nem "maior" do que o outro.
Todos são o mesmo. Todas as expressões de amor são máximas.
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2. Milagres em si não importam. A única coisa que importa é a sua Fonte, Que está muito além de qualquer avaliação.
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3. Milagres ocorrem naturalmente como expressões de amor. O amor que os inspira é o milagre real.

Nesse sentido, tudo o que vem do amor, é um milagre.
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4. Todos os milagres significam vida, e Deus é o Doador da vida.

A Sua Voz vai dirigir-te de forma muito específica. Tudo o que precisas saber te será dito.
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5. Milagres são hábitos e devem ser involuntários. Não devem estar sob controle consciente.

Milagres conscientemente selecionados podem ser guiados de forma equivocada.
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6. Milagres são naturais. Quando não ocorrem, algo errado aconteceu.
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7. Milagres são um direito de todos; antes, porém, a purificação é necessária.
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8. Milagres são curativos porque suprem uma falta;

são apresentados por aqueles que temporariamente tem mais para aqueles que temporariamente tem menos.
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9. Milagres são uma espécie de troca.

Como todas as expressões de amor, que são sempre miraculosas no sentido verdadeiro, a troca reverte às leis físicas.
Trazem mais amor tanto para o doador quanto para aquele que recebe.
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10. O uso dos milagres como espetáculos para induzir a crença é uma compreensão equivocada do seu propósito.
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11. A oração é o veículo dos milagres. É um meio de comunicação do que foi criado com o Criador.

Através da oração o amor é recebido e através dos milagres o amor é expressado.
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12. Milagres são pensamentos.

Pensamentos podem representar o nível mais baixo ou corporal da experiência, ou o nível mais alto ou espiritual da experiência.
Um faz o físico e o outro cria o espiritual.
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13. Milagres são tanto princípios como fins, e assim alteram a ordem temporal.

São sempre afirmações de renascimento, que parecem retroceder mas realmente avançam.
Eles desfazem o passado no presente e assim liberam o futuro.
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14. Milagres dão testemunho da verdade. São convincentes porque surgem da convicção.

Sem convicção deterioram-se em mágica, que não faz uso da mente e é, portanto, destrutiva; ou melhor, é o uso não criativo da mente.
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15. Cada dia deve ser devotado aos milagres.

O propósito do tempo é fazer com que sejas capaz de aprender como usá-lo construtivamente.
É, portanto, um instrumento de ensino e um meio para um fim.
O tempo cessará quando não for mais útil para facilitar o aprendizado.
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16. Milagres são instrumentos de ensino para demonstrar que dar é tão bem-aventurado quanto receber.

Eles simultaneamente aumentam a força do doador e suprem a força de quem recebe.
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17. Milagres transcendem o corpo. São passagens súbitas para a invisibilidade, distante do nível corporal.

É por isso que curam.
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18. Um milagre é um serviço. É o serviço máximo que podes prestar a um outro.

E uma forma de amar o teu próximo como a ti mesmo.
Reconheces o teu próprio valor e o do teu próximo simultaneamente.
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19. Milagres fazem com que as mentes sejam uma só em Deus.

Eles dependem de cooperação porque a Filiação é a soma de tudo o que Deus criou.
Milagres, portanto, refletem as leis da eternidade, não do tempo.
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20. Milagres despertam novamente a consciência de que o espírito, não o corpo, é o altar da verdade.

É esse o reconhecimento que conduz ao poder curativo do milagre.
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21.Milagres são sinais naturais de perdão.

Através dos milagres aceitas o perdão de Deus por estendê-lo a outros.
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22. Milagres só são associados com o medo devido à crença em que a escuridão possa ocultar.

Tu acreditas que aquilo que os teus olhos físicos não podem ver não existe.
Isso conduz a uma negação da visão espiritual.
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23. Milagres rearranjam a percepção e colocam todos os níveis em perspectiva verdadeira.

Isso é cura porque a doença vem da confusão de níveis.
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24. Milagres fazem com que sejas capaz de curar os doentes e ressuscitar os mortos

porque tu mesmo fizeste a doença e a morte, podes, portanto, abolir ambos.
Tu és um milagre, capaz de criar como o teu Criador.
Tudo o mais é o teu próprio pesadelo e não existe. Somente as criações da luz são reais.
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25. Milagres são parte de uma cadeia interligada de perdão que, quando completa, é a Expiação.

A Expiação funciona durante todo o tempo e em todas as dimensões do tempo.
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26. Milagres representam a libertação do medo. "Expiar" significa "desfazer".

Desfazer o medo e uma parte essencial do valor dos milagres na Expiação.
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27. Um milagre é uma benção universal de Deus através de mim para todos os meus irmãos.

O privilégio dos perdoados é perdoar.
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28. Milagres são um caminho para ganhar a liberação do medo.

A revelação induz a um estado no qual o medo já foi abolido.
Milagres são assim um meio e a revelação é um fim.
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29. Milagres louvam a Deus através de ti. Eles O louvam, honrando Suas criações, afirmando que são perfeitas.

Curam porque negam a identificação com o corpo e afirmam a identificação com o espírito.
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30. Por reconhecerem o espírito, os milagres ajustam os níveis da percepção e os mostram em alinhamento adequado.

Isso coloca o espírito no centro, onde ele pode comunicar-se diretamente.
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31. Milagres devem inspirar gratidão, não reverência. Deves agradecer a Deus pelo que realmente és.

As crianças de Deus são santas e os milagres honram a sua santidade, que pode estar oculta mas nunca perdida.
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32. Eu inspiro todos os milagres, que são realmente intercessões.

Eles intercedem pela tua santidade e fazem com que as tuas percepções sejam santas.
Colocando-te além das leis físicas, eles te erguem à esfera da ordem celestial.
Nesta ordem, tu és perfeito.
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33. Milagres te honram porque és amável. Eles dissipam ilusões a respeito de ti mesmo e percebem a luz em ti.

Assim expiam os teus erros libertando-te dos teus pesadelos.
Por liberar a tua mente da prisão das tuas ilusões, restauram a tua sanidade.
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34. Milagres restauram a mente à sua plenitude.

Por expiar o senso de carência, estabelecem proteção perfeita.
A forca do espírito não deixa lugar para intrusões.
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35. Milagres são expressões de amor, mas podem não ter sempre efeitos observáveis.
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36. Milagres são exemplos do pensamento certo, alinhando as tuas percepções com a verdade tal como Deus a criou.
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37. Um milagre e uma correção introduzida por mim num pensamento falso.

Age como catalisador, quebrando a percepção errônea e reorganizando-a adequadamente.
Isso te coloca sob o princípio da Expiação onde a percepção é curada.
Até que isso tenha ocorrido, o conhecimento da Ordem Divina é impossível.
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38. O Espírito Santo é o mecanismo dos milagres. Ele reconhece tanto as criações de Deus quanto as tuas ilusões.

Ele separa o verdadeiro do falso através da Sua capacidade de perceber de forma total e não seletiva.
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39. O milagre dissolve o erro porque o Espírito Santo o identifica como falso ou irreal.

Isso é o mesmo que dizer que por perceber a luz, a escuridão automaticamente desaparece.
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40. O milagre reconhece todas as pessoas como teu irmão e meu também. É um caminho pa-ra se perceber a marca universal de Deus.
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41. A integridade é o conteúdo perceptivo dos milagres. Assim, corrigem ou expiam a percepção defeituosa da falta.
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42. Uma das maiores contribuições dos milagres é a sua forca para liberar-te do teu falso senso de isolamento, privação e falta.
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43. Milagres surgem de um estado milagroso da mente, ou um estado de prontidão para o milagre.
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44. O milagre e uma expressão da consciência interior de Cristo e da aceitação da Sua Expiação.
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45. Um milagre nunca se perde.

Pode tocar muitas pessoas que nem mesmo encontraste e produzir mudanças nunca sonhadas em situações das quais nem mesmo estás ciente.
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46. O Espírito Santo é o mais elevado veículo de comunicação.

Milagres não envolvem esse tipo de comunicação, porque são instrumentos temporários de comunicação.
Quando retornas a tua forma original de comunicação com Deus, por revelação direta, a necessidade de milagres acaba.
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47. O milagre é um instrumento de aprendizado que faz com que a necessidade de tempo diminua.

Ele estabelece um intervalo temporal fora do padrão, que não está sujeito às leis usuais do tempo. Nesse sentido ele é intemporal.
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48. O milagre é o único instrumento a tua disposição imediata para controlar o tempo.

Só a revelação o transcende, não tendo absolutamente nada a ver com o tempo.
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49. O milagre não faz distinções entre graus de percepção equivocada.

É um instrumento para a correção da percepção que é eficiente, sem levar em consideração o grau ou a direção do erro.
É isso o que faz com que ele seja verdadeiramente indiscriminado.
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50. O milagre compara o que tu fazes com a criação, aceitando como verdadeiro o que está de acordo com ela e rejeitando como falso o que está em desacordo.
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em Um Curso em Milagres, de Helen Schucman e William Thetford





Açores, Agosto de 2007

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A magia é a arte de utilizar, à nossa vontade, o mundo dos sentidos.
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Tudo é semente.
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Tudo o que é místico é pessoal – e, portanto, uma variação elementar do Universo.
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Nada mais acessível ao espírito do que aquilo que é infinito.
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Novalis
Todo o Excelente merece o ostracismo. É um bem, se ele a si próprio se condenar. Todo o Absoluto deve ser banido do mundo. No Mundo tem de se viver com o Mundo. E só se vive, se for no sentido dos Homens com os quais se vive. Todo o bem que há no Mundo provém do interior (e portanto vem-lhe a ele do exterior), mas é apenas uma faísca que, veloz, o percorre. Todo o Excelente faz avançar o Mundo, mas deve desaparecer quanto antes.
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O Mundo tem de ser romantizado. Só assim se voltará a encontrar o sentido original. Romantizar não é senão uma potenciação qualitativa. O Eu inferior identificar-se-á, nesta operação, com um Eu melhor. Tal como nós mesmos somos uma semelhante série de potâncias qualitativas. Eis uma operação ainda totalmente desconhecida. Quando dou ao que é comum um sentido mais elevado, às coisas habituais uma aparência misteriosa, a dignidade do Desconhecido ao que é conhecido, um esplandor de Infinito ao que é finito, eu romantizo. Inversa é a operãção para o Sublime, o Místico, o Infinito - através desta associação, isto é logaritimizado - recebe uma expressão corrente. Filosofia romântica. Lingua romana. Elevação e abaixamento, alternadamente.
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Estados de alma, sensações vagas, impressões e sentimentos indefinidos tornam-nos felizes. Sentimos um agradável bem-estar quando em nós não notamos nenhum impulso preciso, nenhuma série de pensamentos e sensações definidos.
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Novalis

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Estamos sós com tudo aquilo que amamos.
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Novalis
O mundo é resultado de um acordo infinito e a nossa própria pluralidade interior é o fundamento da nossa concepção do mundo.
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Os sentidos são para os animais o que as folhas e flores dáo para as plantas. As flores são alegorias da consciência ou da cabeça. Uma suprema propagação é o objectivo desta superior floração, uma conservação superior. Nos seres humanos isso é o orgão da imortalidade, de uma propagação progressiva da personalidade.
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Os nossos sentidos são animais superiores. De dentro, nasce um animalismo ainda mais superior.
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Os nervos são ´raízes superiores dos sentidos.
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Qualquer sentido interior é um sentido para um sentido.
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É necessário que o sistema da moral se torne sistema da Natureza. Todas as doenças se assemelham ao pecado, nisto são transcendência. Todas as nossas doenças são fenómenos de uma sensação elevada que se quer transformar em forças mais elevadas. Como o Homem se queria tornar Deus, ele pecou. - As doenças das plantas são animalizações, as doenças dos animais são racionalizações, as doenças dos minerais são vegetalizações. Será que a cada planta não corresponderá uma pedra e um animal? - As plantas são pedras mortas, os animais são plantas mortas.
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Novalis, Fragmentos de Novalis em selecção de Rui Chafes. Assírio e Alvim, 1992
Muito haveria a dizer sobre as coisas injustas ou aquelas que não compreendemos neste mundo.
Conhecer pressupôe esquecer. O que será conhecer antes de saber que se conhece?
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Não posso criticar os outros por serem assim ou assado, por sentirem desta ou daquela maneira, por exprimirem com profundidade ou sem ela.
Tudo tende para o vazio e para o inexplicável.
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A poesia respira.
A pintura divaga.
A arquitectura personifica.
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Amar é comungar com o infinito.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um pequeno interregno na escrita, nas fotos aqui colocadas. Tenho andado pelo facebook a pôr músicas que gosto e descubro, e dando-as a conhecer a outros. Coisa que contagiou outro amigo meu o José, que tem andado entusiasmadíssimo a pôr coisas nada habituais nestes meios, e extremamente estimulantes. É sempre bom sentir as pessoas a usufruirem de sentimentos e inteligência de outros, e a deitarem cá para fora o seu mundo.
O Jorge conheci-o no facebook, e encontrei um amigo natural e cúmplice. Um poema seu. Da sua Luz. Obrigado Jorge.
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Piazza S. Marco
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A sabedoria é para os barcos
sob as pontes da noite,
a alma, o oiro.
Aqui dormiria, à distância singular
de um beijo, um lençol de água,
um travesseiro de cuidada pedra.
Outras coisas da infância, mas devagar, outros corpos a penumbra percorrendo,
a poeira da luz espiando os sapatos, a navalha chamuscada.
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Também eu herdei a perigosa ilusão
da bicicleta, um silêncio
danado por mulheres, pelo ardor cristalino do álcool,
no limbo mais rasgado do mundo;
o segredo tão natural da pintura
na profecia azul dos mosaicos,
no carvão amargo da noite;
certos vestígios pelo tráfico outrora florescente:
sedas, frutos, tabaco, pequenos tesouros,
caixinhas de laque, sandálias
gastando, dia após dia, a mágoa.
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Que posso fazer pelas pedras desta praça senão
cobri-las de aves, trapos, moedas
e pela poalha do crepúsculo seduzir os vitrais,
os óleos santos, o sândalo, o bolor intenso das paredes?
Cambiar a chuva pelos claustros do vento, o vidro
de oficiante fogo, comoem Murano a família Barelli?
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Que poderei comprar para o vazio
deste anoitecer? um pouco do meu sol?
daquele mar, um punhado de areia?
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Jorge Velhote

domingo, 19 de dezembro de 2010

(...) A percepção emocional conhecemos por exemplo da música. O primeiro andamento daquela sonata para violoncelo - e em dois segundos surge aquele sentimento! (Sonata nº2 em Fá maior) E não sei porquê. Em relação à arquitectura também é um pouco assim. Não tão forte como na maior das artes, mas está lá. Vou ler-vos a título de exemplo o que escrevi a este respeito no meu livro de apontamentos. "É Quinta-feira Santa de 2003. Sou eu. Estou ali sentado. Uma praça ao sol, uma arcada grande, longa, alta e bonita ao sol. A praça - frente de casas, igreja, monumentos - como panorama à minha frente. A parede do café nas minhas costas. A densidade certa de pessoas. Um mercado de flores. Sol. Onze horas. A parede do outro lado da praça na sombra, em tons agradavelmente azuis. Sons maravilhosos, conversas próximas, passos na praça, pedra, pássaros, um leve murmúrio da multidão, sem carros, sem barulho de motores, de cada vez em quando ruídos de obra ao longe. Os feriados a começar já tornaram os passos das pessoas mais lentos, imagino. Duas freiras - isto é realidade e não imaginação - duas freiras cruzam a praça, gesticulando, de passos leves e toucas a agitarem-se levemente ao vento, cada uma traz um saco de plástico. A temperatura: agradavelmente fresco, com calor. Estou sentado na arcada, num sofá estofado em verde mate, a figura de bronze à minha frente no alto pedestal está de costas para mim e olha, como eu, para a igreja de duas torres. As duas torres da igreja têm cúpulas diferentes, que em baixo começam de forma igual e que ao subir se individualizam. Uma é mais alta e tem uma coroa dourada à volta do topo. Em breve, B virá ter comigo, cruzando a praça na diagonal." Agora, o que é que me tocou? Tudo. Tudo, as coisas, as pessoas, o ar, ruídos, sons, côres, presenças materiais, texturas e também formas. Formas que consigo compreender. Formas que posso tentar ler. Formas que acho belas. E o que é que me tocou para além disso? A minha disposição, os meus sentimentos, a minha expectativa na altura em que ali estive sentado. E vem-me à cabeça esta famosa frase inglesa que remete a Platão: "Beauty is in the eye of the beholder". Isto é: tudo existe apenas dentro de mim. Mas depois faço a experiência e elimino a praça. E já não tenho os mesmos sentimentos. Uma experiência simples, desculpem a simplicidade do meu pensamento. Mas ao eliminar a praça - os meus sentimentos desaparecem. Naquela altura nunca os teria tido da mesma forma sem a atmosfera da praça. Lógico. Existe um efeito recíproco entre as pessoas e as coisas. E é com isto que me identifico como arquitecto. E é isto a minha paixão. Existe uma magia do real. No entanto, conheço bem a magia dos pensamentos. E a paixão dos pensamentos belos. Mas aqui estou a falar daquilo que muitas vezes acho ainda mais incrível: a magia do verdadeiro e do real.(...)
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Peter Zumthor, Atmosferas, Gustavo Gili, 2006

sábado, 18 de dezembro de 2010


(...)o que é no fundo a qualidade arquitectónica? É relativamente fácil de responder. A qualidade arquitectónica - para mim - não significa aparecer nos guias arquitectónicos ou na história da arquitectura ou ser publicado etc...Qualidade arquitectónica só pode significar que sou tocado por uma obra. Mas porque diabo me tocam estas obras? E como posso projectar tal coisa? Como posso projectar algo como o espaço desta fotografia - é um ícone pessoal, nunca vi este edifício, acho que já não existe, e, no entanto, adoro vê-lo. Como se podem projectar coisas assim, que têm uma presença tão bela e natural que me toca sempre de novo.
Uma demonstração para isto é a atmosfera. Todos nós a conhecemos: vemos uma pessoa e temos uma primeira impressão. E eu aprendi: não confies nisto, tens de dar uma oportunidade a esta pessoa. Agora estou um pouco mais velho e tenho de dizer que voltei para a primeira impressão. Em relação à arquitectura também é um pouco assim. Entro num edifício, vejo um espaço e transmite-se uma atmosfera e numa fracção de segundo sinto o que é.
A atmosfera comunica com a nossa percepção emocional, isto é, a percepção que funciona de forma institiva e que o ser humano possui para sobreviver. Há situações em que não podemos perder tempo a pensar se gostamos ou não de alguma coisa, se devemos ou não saltar e fugir. Existe algo em nós que comunica imediatamente connosco. Compreensão imediata, ligação emocional imediata, recusa imediata. É diferente daquele pensamento linear que também possuimos e que também amo, chegar de A a B racionalmente, obrigando-nos a pensar sobre tudo. (...)
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Peter Zumthor, Atmosferas, Gustavo Gili, 2006

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A profissão de arquitecto é extremamente exigente. Pressupõe que tenhamos um conhecimento pormenorizado do modo de construir, um perfeito domínio do espaço e das proporções, uma inteligência e percepção clara do que é necessário para que um projecto se adeque ao local e à função para que é destinado. E esse destino, essa sina do arquitecto, deveria ser, o de conceber algo intemporal, mas também, que vá de encontro às pessoas que usufruem do espaço criado, que lhes acrescente algo, como a beleza, ou um certo olhar particular sobre o mundo que as rodeia, que lhes traga um sentido de organização do espaço, que elas próprias adoptam para as suas vidas. Como um filho que em vez de estar dentro de uma barriga, somos nós que estamos no seu interior; respiramos e somos nutridos por esse ser, essa forma, que nos envolve.
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Existe algo que me faz confusão, mas é perfeitamente natural que aconteça, se na sua formação, o arquitecto não fôr sensibilizado para tal. Porque é que nem todos os arquitectos têm a percepção isenta, da qualidade do seu trabalho, e não sabem fazer o diagnóstico correcto das premissas que devem orientar e estruturar o seu projecto? Que fazer arquitectura é antes de mais criar um ser vivo, criar uma planta, criar um animal, que precisa de ser alimentado, acariciado, respirado, no fundo, sentido como algo que vai fazer parte de todos os nossos sentidos, que vai ser modificado e habitado por nós, ao longo do tempo, como um ser vivo, igual a nós. A forma-função deverá pois, ser orgânica...terá de dialogar com o espaço envolvente...deverá gerar encantamento.
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Como saber se somos bons arquitectos, ou melhor, se estamos a fazer boa arquitectura? Saber responder a essa pergunta faz parte da percepção e formação inerente a um bom arquitecto. Ver, reflectir, ensaiar soluções...e chegar a um objecto arquitectónico de qualidade, obedece a uma ideia que germinou no local de intervenção, percorreu a história da arquitectura e a sensibilidade cultural, espacial e poética de cada arquitecto envolvido. Um edifício concebido através unicamente da sua funcionalidade e que depois decoramos para que fique apresentável e credível, em geral, é um objecto morto, sem vida...como peça de arquitectura, desinteressante...
A PARTIDA DE XADREZ
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Um inglês e uma mulher da Rússia conheceram-se em Capri e viveram um breve e pungente encontro de amor. Depois o inglês regressou a Londres e a mulher à sua grande planície. Decidiram continuar o seu amor jogando uma longa partida de xadrez à distância. De tempos a tempos, chegava à Rússia uma carta com a jogada a fazer e, logo depois, chegava à Rússia a carta com os números de Londres. Entretanto o inglês casou e teve três filhos. A amante viveu também um matrimónio feliz. A partida de xadrez prolongou-se ainda por vinte anos, com uma carta de seis em seis meses. Um dia chegou ao inglês uma jogada de cavalo tão astuta que lhe ganhou a rainha. E ele percebeu que a jogada fora realizada por outra pessoa para lhe indicar que a mulher falecera.
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Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria, Assírio e Alvim, 2002
JUNTO AO FOGO
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Decidiu abandonar as mulheres e, por longo tempo, de facto, viveu só. Passeava, olhava as árvores e frequentava o café sem voltar o rosto para qualquer mulher bela.
Mas um dia, uma jovem colocou-se a seu lado e disse-lhe que o amava. Durante muitos dias o homem recusou-a, até que a mulher deixou de vir ao café, desaparecendo sabe-se lá para onde.
Só agora, aquele tal, foi sacudido por tão grande amor que percorreu, a pé, toda a cidade até que parou a conversar com uma daquelas mulheres que vive junto às fogueiras, na periferia. E nem reparou que era a mesma rapariga que o amava.
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Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria, Assírio e Alvim, 2002

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Miradouro de Santa Lúzia, Lisboa, 30 de Novembro 2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

Enquanto a música corre,
e o tempo se confina ao extremo do possível,
...
a duração de uma nota
é algo de inultrapassável.
I. Pela perseguição implacável de todos os exércitos às portas de todos os que pensam na ironia de viver sempre seguros, enquanto seres vivos.
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II. A vida persegue aqueles que vendem a sua alma durante o sono. É preciso recuperar os sentidos nos sonhos. Sentir o precipício da vida.
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III. Não sei se toda a actividade humana será aniquilada pelo uso indevido da razão. Seremos arrastados na avalanche de acções inócuas e sem espírito.
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A alma vagueia,
o coração nunca será transparente.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010


Santos, Lisboa, 29 de Novembro 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

The human body is a vehicle of the spirit, a completed vehicle which experiences all the different aspects of creation. This does not mean that all other forms and names which exist in this world, some as objects, others as creatures, are not responsive to the expression of the spirit. In reality every object is responsive to the spirit and to the work of the spirit, which is active in all aspects, names and forms of the universe. One reads in the Masnavi of Rumi, that the earth, the water, the fire and the air, before man are objects, but before God they are living beings. They work at His command, as man understands living beings working under the command of a master. If creation can be explained, it is the phases of sound or of vibration, which manifest in different grades in all the various forms in life.
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Even what we call matter or substance, and all that does not seem to speak or sound, is in reality all vibration. And the beauty of the whole of creation is this, that creation has worked in two ways. In one way it has expressed and in the other way it has made itself a responsive mold. For instance, there is substance, matter to touch, and there is a sense to feel, to touch. There is a sound, and at the same time there are ears which can hear sound. There is light, there is form, there are colors; and at the same time there are eyes to see them. And what man calls beauty is the harmony of all one experiences. What after all is music? What we call music is the harmony of the audible notes; but in reality there is music in color, there is music in lines, there is music in the forest where there is a variety of trees and plants; and there is harmony in how they correspond with each other. The more widely one observes nature, the more it appeals to one's soul. Why? Because there is a music there; and the wider one's outlook on life becomes, the deeper one's understanding of life, the more music one can listen to, the music which answers the whole universe. But the one whose heart is open need not go as far as the forest; in the midst of the crowd he can find music. At this time human ideas are so changed, owing to materialism, that there is hardly any distinction of personality. But if one studies human nature, one sees that even a piano of a thousand octaves could not reproduce the variety of human nature. How people agree with one another, how they disagree; some become friends after a contact of a moment, some in many years cannot become friends. If one could only see to what pitch the different souls are tuned, in what octaves different people speak, what standards different people have! Sometimes there are two people who disagree, and there comes a third person and all unite together. Is that not the nature of music? The more one studies the harmony of music, and then studies human nature, how people agree and how they disagree, how there is attraction and repulsion, the more one will see that it is all music.
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But now there is another question to be understood. That what man knows is generally the world he sees around him. Very few trouble to think that there is something beyond what they see around them. To many it is only a fable when they hear that there are two worlds. But if one looked deep within oneself one would see that it is not only two worlds; it is so many worlds that it is beyond expression. That part of one's being which is receptive is mostly closed in the average man. What he knows is expressing outwardly, and receiving from the same sphere whence he can receive from himself. For instance, the difference between a simple man and a thinking person with deeper understanding, is that when a simple person has received a word he has heard it only in his ears; whereas the thinking person has received the same word as far as his mind. The same word has reached the ears of the one and the heart of the other. If this simple example is true, it shows that one person lives only in this external world, another person lives in two worlds, and a third person lives in many worlds at the same time. When a person says, 'Where are those worlds? Are they above the sky, or down below the earth?' the answer is that all these worlds are in the same place as that person is himself.
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As a poet has said, 'The heart of man, if once expanded, becomes larger than all the heavens.' The deep thinkers of all ages have therefore held that the only principle of awakening to life is the principle of emptying the self. In other words, making oneself a clearer and more complete accommodation in order to accommodate all experiences more clearly and more fully. The tragedy of life, all its sorrows and pains, belong mostly to the surface of the life of the world. If one were fully awake to life, if one could respond to life, if one could perceive life, one would not need to look for wonders, one would not need to communicate with spirits; for every atom in this world is a wonder when one sees with open eyes.
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In answer to the question as to what is the experience of those who dive deep into life, and who touch the depth within, Hafiz has said, 'It is not known how far is the destination, but so much I know, that music from afar is coming to my ears'. The music of the spheres, according to the point of view of the mystic, is like the lighthouse in the port that a man sees from the sea, which tells him that he is coming nearer to his destination. What music may this be? If there were no harmony in the essence of life, life would not have created harmony in this world of variety. And man would not have longed for something which was not in his spirit. Everything in this world which seems to lack harmony is in reality the limitation of man's own vision. The wider the horizon of his observation becomes, the more harmony of life he enjoys. In the very depth of man's being the harmony of the working of the whole universe is summed up in a perfect music. Therefore the music of the spheres is the music which is the source of creation, the music which is heard while traveling towards the goal of all creation. And it is heard and enjoyed by those who touch the very depth of their own lives.
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in Hazrat Inayat Khan, Music, Chapter III -THE MUSIC OF THE SPHERES

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Montserrat Figueras "Alma, buscarte has en Mí"



Isto é tão bonito, meu Deus...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010



Poiso, 14 de Novembro 2010
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Ainda não tinha ido lá acima desde o grande incêndio...


domingo, 14 de novembro de 2010

Perguntar por que razão existe música parece supérfluo à maioria, e muitos responderão que ela existe para relaxar, para o prazer estético, para superar o tédio, para elevar o espírito, para matar o tempo, para a auto-edificação. Apesar disso, o poder espiritual das grandes obras da literatura musical erudita é indiscutivelmente perceptível. Há nelas sons fantásticos, e isso em todos os estilos e tendências. Se antes forem obtidas algumas condições básicas para isso, tais como a boa receptividade, a atmosfera apropriada para um aprofundamento relaxado e, sobretudo, a compreensão do significado espiritual da música, ela pode levar o indivíduo a possibilidades de experiência jamais tentadas. Em todas as culturas antigas do mundo, a música existiu em função do ritual, do serviço, do serviço de Deus, da expansão da consciência e das mais profundas experiências humanas. A compreensão intuitiva desse significado seria a condição prévia para se conseguir uma nova consciência auditiva efectiva em todos os tipos de música actualmente praticados (erudita, pop, jazz, de vanguarda, ou música não-europeia).
As culturas do Extremo Oriente, todos os rituais mágicos da África, da Ásia e da América do Sul, e todos os ritos e cultos xamanísticos possuem um conhecimento em geral inconsciente de uma força primordial desencadeada através de meios musicais. Isso poderia ser estimulante para nós; de qualquer maneira, caberia a nós não só deixar essa energia agir de forma mágica, mas também experimentando-a conscientemente, para que ela se torne presente para nós , para que fique à nossa disposição e nos ajude a nos tornarmos seres humanos perfeitos, no sentido de uma totalidade integral. Quando conhecermos os processos musicais de uma forma mais intensa, mais sensível e mais atenta, processos esses que em parte há milénios, em parte há alguns anos são utilizados para o autoconhecimento do ouvinte, teremos condições de nos tornarmos “parte do todo universal”, como expôs o filósofo da cultura Jean Gebser em seu ensaio Uber die Erfahrung (Sobre a experiência): “É possível que a tarefa da existência humana seja alcançar essa participação consciente. Ela também engloba o invisível, aquilo que, portanto, não nos é revelado, o inexprimível, ou seja, o segredo que não pode ser compartilhado.”
Que semelhante experiência possa ser alcançada também através da audição ou da execução musical parece, em princípio, improvável. Ela só se torna perceptível com uma consciência auditiva “integral”, que “experimenta a vitalidade mágica, que presencia a forma mítica da alma e que compreende a estrutura mental”. Esta forma integral de ouvir poderia, finalmente, levar a um “estado transparente” da percepção, que não é atemporal, como na experiência mágica, mas que (segundo Gebser) paira onde há “liberdade de espaço e de tempo”. Com certeza não existe hoje uma música que corresponda totalmente a essa consciência integral. Mas, em princípio, ela pode ser descoberta em várias culturas musicais exóticas e nos trabalhos musicais ocidentais do século XX, com os quais se indentifica.
Então, depois da concepção de Jean Gebser que, ao lado de Sri Aurobindo e de teilhard de Chardin, formulou esta visão do mundo integral, o homem mental-racional do Ocidente deve novamente redescobrir e experimentar as fontes mágico.míticas da consciência para poder consumar o salto para essa integração. Desde a descoberta do inconsciente e desde os avanços nos campos molecular e interatómico, podemos ter certeza, segundo Ronald Steckel que desenvolveu um projecto para uma integração espiritual com a ordem mundial vigente, “de que os acontecimentos decisivos causados por toda a vivência humana, todo o comércio e todo o movimento material acontecem num âmbito que quase não conhecemos e que não podemos ver com nossos olhos físicos. Por trás da face visível do mundo esconde-se uma fase Invisível.
As ligações com o Invisível que temos à nossa disposição são, segundo Steckel, os órgãos do sentimento e da sensibilidade, que dão às experiências o tom e a nitidez, que avançam por sob a superfície do vivido e libertam o oculto. Com isso, Steckel fala exactamente da tarefa do músico hoje. Pois o conhecimento vivo da unidade entre o visível e o invisível, entre o corpo e a alma, está hoje destroçado. “O que caracteriza nosso tempo, mais do que qualquer coisa, é o ímpeto de controlar o mundo exterior, e isso através de uma desconsideração quase total para com o mundo interior… Por “interior” quero dizer a nossa maneira de ver o mundo exterior e quaisquer realidades que não tenham nenhuma presença “externa”, “objectiva” – imaginação, sonhos, fantasias, estados de transe, realidades dos estados de meditação e de contemplação, que o homem moderno em geral desconhece por completo.
Esse conhecimento, “que em quase todas as culturas acessíveis da história estava ligado à pessoa do xamã, do curandeiro ou dos sacerdotes do culto” (Steckel), poderia, através de uma profunda experiência musical da pessoa consigo mesma, integrá-la na consciência do todo. É exactamente através da energia das obras musicais que nos é possível encontrar em nós o acesso aos âmbitos da alma e do espírito(…)
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Peter Michael Hamel, O autoconhecimento através da música, 1976,Cultrix, 1991

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

(…)O homem da época “pré-musical” possuía um órgão interno para vivenciar a música. Ele não ouvia a música, os sons, através do ouvido: percebia-os de modo inaudível. Essa música espiritual do Universo harmonizava o corpo físico terrestre, criando nele também o órgão que então poderia ouvir o som em seu reflexo terrestre: o ouvido. Percebendo, por intermédio do ouvido, o reflexo terrestre da música, realizamos o processo na ordem inversa, isto é, o da renovada ligação com o Cosmo permeado de música. A música possibilita captar as forças criadoras supra-sensíveis da alma, que se encontram na iminência de serem despertas, e introduzi-las no mundo.
Tal como entre o pensar e o querer, situa-se o sentir, entre melodia e ritmo situa-se a harmonia. Também no sistema rítmico do corpo físico, no inspirar e exalar da respiração e no batimento cardíaco, actua o ritmo. Esse ritmo que se manifesta no organismo físico é portador do sentimento. No fluir para o interior e para o exterior, no encontro entre estes dois âmbitos surge o sentimento. Captada por percepção externa, física, a música, fluindo para dentro do ser humano, encontra-se com o ser anímico-espiritual do homem e suscita a vivência. Não são os tons que constituem o elemento musical, e sim o que, por seu intermédio, é motivado na alma. De acordo com isso, os ritmos dinâmicos do sistema rítmico corporal são apenas uma contraposição para a vivência musical. O corpo astral tem sua expressão física no homem aéreo, isto é, no ritmo da respiração, sendo vivenciado como algo musical pela cognição supra-sensível da inspiração. O processo respiratório torna-se interiormente audível na inspiração. Nele reina o corpo astral afinado musicalmente.
Assim como o cérebro não gera os pensamentos, mas constitui a base material para o pensar, Também o sentimento, no sistema rítmico, necessita do apoio físico.
Na vivência musical genuína tocamos o mundo espiritual, sem, contudo, vê-lo ainda. E mediante essa vivência, o mundo humano dos sentimentos, principalmente no que concerne ao lado moral, é aprofundado. “O sentir é, ele próprio, o resultado de uma harmonização constantemente renovada na parte mediana do homem. Se pudéssemos alçar ao reino da inspiração o homem como ser anímico pensante, emotivo e volitivo, tudo o que é material ficaria para trás; mas o homem principiaria a soar como obra de arte melódico-harmônico-rítmica da música cósmica que perpassou nosso eu. Esta é a música cósmica que ficou perdida para nossa consciência e que o homem desde aquele momento, procura reencontrar no plano terrestre.”
(…)De certo modo, o ritmo se transmite por si; no caso da melodia, entretanto, é preciso ligar-se interiormente quando se deseja captá-la em seu conteúdo. E o conteúdo do elemento melódico que introduz sensatamente o ritmo no todo musical. Assim como o pensar é o princípio ordenador dentro do âmbito anímico, o elemento melódico é o princípio plasmador e ordenador dentro da música.
Em cada melodia reside um impulso dinâmico interno que podemos vivenciar em nossa alma. “Em cada elemento da música revelam-se movimentos interiores da alma humana plenos de conteúdo. Em todo aspecto melódico movem-se forças que também tecem fios no acto do pensar, mas que, antes do pensamento, permanecem estacionárias no movimento.”(E.Scwebsch, Bach und die Kunst der Fuge) Nesta vivência captamos a realidade supra-sensível espiritual no ponto em que esta ainda interfere em nós directamente. Tal vivência é despertada pela audição. Se continuássemos perseguindo na vivência esse movimento interno do movimento melódico, isto é, se acompanhássemos o inaudível, precisaríamos mergulhar no mundo espiritual.
Esses movimentos tonais, que em épocas passadas conduziam o eu em direcção ao ser humano e plasmavam os envoltórios físicos seguindo leis tonais, têm hoje a missão de novamente ligar o eu ao mundo espiritual e preparar o futuro. “Como músicos, aprendemos a captar o embrião supra-sensível de vida futura em tudo o que nos toca no íntimo. Assim a música se torna um órgão de vida futura”.
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Em Carl Albert Friedenreich, A educação musical na escola Waldorf, 1977, Editora Antroposófica.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

The Passion of Joan of Arc (1928) 3/8

Revi no outro dia este filme absolutamente único. Sentimentos à flôr da pele, Devoção cinematográfica, Graça...Amor...Divino...

(desliguem o som, o filme original é mudo)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

(…) Há no amor alguma coisa (não direi que seja um defeito do amor porque o defeito está em nós próprios), mas qualquer coisa que não compreendemos na sua natureza. Por exemplo, o amor que sente por Justine não é um amor diferente por um objecto diferente, mas o mesmo amor que sente por Melissa tentando realizar-se através de Justine. O amor é terrivelmente permanente e cada um de nós só tem direito à sua pequena porção. Pode aparecer sob uma infinidade de formas e prender-se a uma infinidade de pessoas. Mas é limitado em quantidade, e não pode esgotar-se e desaparecer antes de alcançar o seu verdadeiro objecto. O seu destino oculta-se algures, nas mais profundas regiões da alma, onde acabará por se reconhecer como o amor de si, o terreno sobre o qual construímos uma espécie de saúde da alma. E isto não é nem egoísmo nem narcisismo.

Em Justine, de Lawrence Durrel, tradução de Daniel Gonçalves, Ulisseia

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

No frontispício desse livro:
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...os gestos estranhos
que para matar o Amor,
fazem os amantes.
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Paul Valery
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Amor é dar o que não se tem a quem não é.
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Jacques Lacan

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Veio-me esta frase à cabeça: O amor é uma droga dura. Fui à busca na internet e apareceu-me um livro com esse título, editado em Portugal pela Teorema, por esta escritora do Uruguai, Cristina Peri Rossi, de que tirei extractos de entrevistas, bem a propósito de algumas questões sempre à baila aqui.
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Bueno, la última pregunta: algunas veces hablas de la catástrofe del amor. ¿Se puede aprender a amar a la medida justa?

Mira, yo pienso que a amar no se aprende. Amar es una cosa que una tiene en el corazón. Porque, en último término, si uno no tiene capacidad de amar es difícil que encuentre un objeto para amar, qué sé yo: el perrito, el gatito, el vecino de la esquina. Además, el amar te coloca en una situación de fragilidad y de vulnerabilidad (siempre me acuerdo del poema de William Blake que dice que la sonrisa de la mujer que ama le lleva al paraíso, pero si no lo mira se hunde en el infierno). Sí, nos coloca en una situación de dependencia emocional muy grande, en una situación muy frágil. Pero ¡bendita sea esa fragilidad, porque lo contrario sería ser robot!

Tiene que ver con la libertad también, la libertad interior...

Sí, sí, lo que ocurre es que algo tenemos que obtener. Todos los seres humanos somos narcisos. ¿Cómo es que nos colocamos en esa situación de dependencia? Algo importante tenemos que obtener. Yo creo que es, por una parte, la intensidad emocional y, por otra, la ilusión. Asumimos esa fragilidad y esa vulnerabilidad en la medida en que va unida a una cuota de intensidad que no tienen otras cosas... Lo comparo con la creación. Lo que ocurre, lo que noto, es que la gente cada vez está menos dispuesta a colocarse en esta situación de fragilidad. Por todos lados, los libros de autoayuda te dicen que hay que evitar la dependencia. A ver, ¿qué están diciendo? Evitar el contacto, el amor… Al contrario, lo que tenemos que hacer es reforzar esos lazos de dependencia. Lo tremendo es depender de una sola persona, pero no los lazos de dependencia. Yo dependo de que me vendan el pan, de que el médico esté cuando le llamo... Sí, vivimos en situaciones de dependencia. Y la interdependencia, por otra parte, es cuando la dependencia es mutua.A mí me gusta mucho que me interrumpa mi novia a cada rato para decirme “Te quiero”, me parece maravilloso. ¿Para qué quiero yo que no me interrumpa? Estoy rodeada de gente que no quiere que nadie le interrumpa con un mensaje así. Y me parece que el amor hace aflorar con esa fragilidad nuestra parte más sensible. Normalmente, los libros de autoayuda te dicen: primero hay que amarse a sí mismo y después a los demás. Si te lo tomas en serio, muy en serio, nunca amas a nadie. Porque en el amor hay una entrega, y así te vuelves menos egoísta. Justamente, para mí amar implica renunciar a una cantidad de objetivos. Uno no ama para hacer lo que le da la gana, sino para renunciar en parte a lo que nos da la gana y hacer a veces lo que el otro quiere. Uno tiene que tener en cuenta la satisfacción del otro, porque no somos distintas personas. Pero, en todo caso, creo que el amor no es solamente el amor interpersonal, sino también el amor a la gente, a ciertas ideas, a ciertos objetos y, sobre todo, un amor a la vida, que implica renunciar a ciertos placeres...
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Entrevista a Cristina Peri Rossi, diciembre de 2008, Barcelona. Publicada por la revista Matices, junio 2010, Alemania.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

(…) Mesmo de um ponto de vista exterior nota-se imediatamente no destino destas três figuras heróicas, Hoderlin, Kleist e Nietzsche, uma evidente coincidência: encontram-se os três, por assim dizer, sob o mesmo signo. São expulsos do seu próprio ser por um poder superior, de certa maneira sobrenatural, e atirados para dentro de um ciclone de paixão que os destruirá, terminando precocemente os seus dias numa terrível perturbação do espírito, numa fatal embriagues dos sentidos, na loucura ou no suicídio. Separados do seu tempo, incompreendidos pela sua geração, cada um deles passa meteoricamente como um lampejo breve através das trevas da missão que lhe coube. Desconhecem o seu caminho, desconhecem o sentido da sua existência, porque o seu trajecto os conduz do infinito ao infinito; na sua ascensão e queda, mal chegam a tocar no mundo real. Algo de inumano age neles, uma violência acima da sua própria violência, uma força à qual se sentem integralmente submetidos; não obedecem à própria vontade (são eles os primeiros a reconhecê-lo, aterrados, nos escassos instantes de vigília do seu eu), antes escravos, possuídos (no duplo sentido da palavra) por um poder superior, o poder do demoníaco.
O demoníaco. O termo, desde os tempos primitivos da intuição mítico-religiosa até aos nossos dias, passou por tantas variações, por tantas interpretações, que me sinto obrigado a especificar o sentido em que o uso. Chamo demoníaco àquela inquietação originária e essencial com que cada indivíduo nasce e que o arranca para fora de si mesmo, para lá de si mesmo em direcção ao infinito, aos elementos primordiais, como se a natureza por assim dizer tivesse deixado em cada alma individual uma parte inalienável e inquieta do seu caos de outrora, uma parte que com impaciência e paixão quisesse regressar a esta elementaridade sobre-humana, supra-sensível. O demónio, o daimon, corporiza em nós a substância levedante, o fermento inquieto, torturante, em permanente tensão, que impele o ser para fora da sua quietude habitual em direcção à desmesura, ao êxtase, à renúncia e aniquilamento de si mesmo; na maior parte dos homens, nos indivíduos medianos, essa parte da alma, a um tempo preciosa e perigosa, depressa é sugada e dissipada; só durante raros segundos, nas crises de puberdade, nos instantes em que por amor ou por ímpeto criativo o cosmos interior entra em efervescência, este ímpeto de libertação do corpo, esta exaltação que ao mesmo tempo é auto-expressão, exerce o seu domínio sobre a banalidade da existência burguesa. Mas, fora isso, as pessoas equilibradas abafam o impulso fáustico que haja dentro de si, cloroformizam-no com a moral, anestesiam-no com o trabalho, contêm-no com o dique da ordem; o burguês é sempre arqui-inimigo do caótico, não apenas no mundo, na sociedade, mas também dentro de si próprio. Porém, no homem superior, sobretudo no homem produtivo, a inquietude, a insatisfação com a repetição das tarefas quotidianas, continua a exercer um poder criativo, dando-lhe aquele “coração superior que a si mesmo se tortura”(Dostoievski), aquele espírito interrogativo que muito para lá de si próprio estende a sua nostalgia em direcção ao cosmos. É sempre à parte demoníaca de cada um de nós que se fica a dever tudo o que nos projecta para lá do ente individual que somos, para lá dos nossos interesses pessoais, tudo o que nos confere a sagacidade e o desejo de aventura com que nos lançamos na interrogação e nos perigos que ela comporta. Mas este demónio só é uma força amiga, favorável, enquanto a conseguimos dominar, enquanto estiver ao serviço da tensão que nos anima, ao serviço de um desejo de intensificação, de elevação; o verdadeiro perigo começa quando essa tensão salutar se transforma num excesso de tensão, quando a alma sucumbe ao impulso subversivo, ao vulcanismo do demoníaco. Porque o demónio só pode alcançar a sua pátria, o elemento que lhe é próprio, a infinitude, na medida em destruir sem compaixão a coisa finita, terrena, em que momentaneamente fixou a sua morada, ou seja, o corpo.
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Em Stefan Zweig, O combate com o demónio, Hoderlin, Kleist, Nietzsche, Antígona, 2004