quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O QUE É ANGÚSTIA?
.
Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusivé, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que também é uma forma de angústia.
Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia - a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.
.
Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo, 1984, Rocco
terça-feira, 28 de setembro de 2010
.
1. Que penso do amor? – Em suma, nada penso. Gostaria de saber o que é, mas, estando nele embrenhado, vejo-o em existência, não em essência. Isto que quero conhecer (o amor) é a mesma matéria que utilizo para falar (o discurso de amor). É-me certamente permitida a reflexão, mas, como essa reflexão fica imediatamente presa na repetição das imagens, não se transforma em reflexibilidade: excluído da lógica (que admite linguagens exteriores umas às outras), não posso pretender pensar bem. Assim, por mais que discorra sobre o amor ao longo do ano, apenas poderia ter a esperança de agarrar o conceito “pela cauda”: por relâmpagos, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos através da grande corrente do Imaginário; estou do lado mau do amor, do seu lado deslumbrante: “O lugar mais sombrio, diz um provérbio chinês, situa-se sempre sob a lâmpada.”
2. Ao sair do cinema, sozinho, matutando no meu problema de amor que o filme não fora capaz de fazer esquecer, exclamo bizarramente: não: que isto acabe! Mas: quero compreender (o que me está a acontecer)!
3. Repressão: quero analisar, saber, enunciar numa outra linguagem que não seja a minha; quero representar a mim próprio o meu delírio, quero “olhar de frente” o que me divide, me corta. Compreendei a vossa loucura: era a ordem de Zeus, ao dizer a Apolo que virasse o rosto dos Andróginos divididos (como um ovo, uma sorva) na direcção do golpe (o ventre) “para que a visão da sua separação os torne menos ousados”. Compreender não é cindir a imagem, desfazer o eu, órgão soberbo do desconhecimento?
4. Interpretação: não é aí que está o significado do vosso grito. Esse grito, na verdade, é ainda um grito de amor: “Quero compreender-me, fazer-me compreender, fazer-me conhecer, fazer-me beijar, quero que alguém me leve consigo.” Eis o que significa o vosso grito.
5. Quero mudar de sistema: nunca mais desmascarar, nunca mais interpretar, mas fazer da própria consciência uma droga e através dela aceder à visão sem fim do real, ao grande sonho claro, ao amor profético.
6. (E se a consciência – uma tal consciência – fosse o nosso futuro humano? Se, graças a uma volta suplementar da espiral, num dia, deslumbrante entre todas, desaparecida toda a energia reactiva, a consciência se tornasse enfim nisto: a abolição do patente e do latente, da aparência e do escondido? Se à análise fosse pedido não que destruísse a força (nem mesmo a corrigisse ou dirigisse) mas apenas que a decorasse, à maneira do artista? Imaginemos que a ciência do lapso descobre um dia o seu próprio lapso e que esse lapso é: uma forma nova, estranha, da consciência?)
.
Roland barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, 1977, Edições 70
domingo, 26 de setembro de 2010
.
Partida
.
Ao ver escoar-se a vida humanamente
Em suas águas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.
Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
Não há muitos que a saibam reflectir.
A minh'alma nostálgica de além,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a fôrça de sumir também.
Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul á busca da beleza.
É subir, é subir àlem dos céus
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados resar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.
É partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d'irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.
É suscitar côres endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d'alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.
Ser coluna de fumo, astro perdido,
Forçar os turbilhões aladamente,
Ser ramo de palmeira, água nascente
E arco de ouro e chama distendido...
Asa longinqua a sacudir loucura,
Nuvem precoce de subtil vapor,
Ânsia revolta de mistério e olor,
Sombra, vertigem, ascensão - Altura!
E eu dou-me todo neste fim de tarde
À espira aérea que me eleva aos cumes.
Doido de esfinges o horizonte arde,
Mas fico ileso entre clarões e gumes!...
Miragem rôxa de nimbado encanto -
Sinto os meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.
Sei a distância, compreendo o Ar;
Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz;
Sou taça de cristal lançada ao mar,
Diadema e timbre, elmo real e cruz...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
O bando das quimeras longe assoma...
Que apoteose imensa pelos céus!
A côr já não é côr - é som e aroma!
Vem-me saudades de ter sido Deus...
* * *
Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro - é alto e é raro.
Únicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois...
.
.
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
(…) A “vida intensa” faz-se à custa tanto do espírito como do corpo. Mestres na arte de pensar contra si próprio, Nietzsche, Baudelaire, Dostoievski ensinaram-nos a apostar nos nossos perigos, a alargar a esfera dos nossos males, a ganhar existência através da divisão interna do nosso ser. E aquilo que aos olhos do grande chinês era símbolo de decadência, exercício de imperfeição, constitui para nós a única modalidade por que nos possuímos, por que entramos em contacto connosco próprios.
“Que o homem nada ame, e será invulnerável” (Tchuang-tsé). Máxima tão profunda como inoperante. Como atingir o apogeu da indiferença quando até a nossa apatia é tensão, conflito, agressividade? Não há nenhum mestre de sabedoria entre os nossos antepassados, mas sim seres insatisfeitos, caprichosos, frenéticos, cujas decepções ou excessos temos, de uma maneira ou de outra, que continuar.
(…) A esfera da consciência reduz-se na acção, por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades de ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si próprias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas.
(…) Empanturrados de sensações e do seu corolário, o devir, somos seres não libertos, por inclinação e por princípio, condenados de eleição, presas da febre do visível, pesquisadores desses enigmas de superfície que estão à altura do nosso desânimo e da nossa trepidação.
Se queremos recuperar a nossa liberdade, devemos pousar o fardo da sensação, deixar de reagir ao mundo através dos sentidos, romper os nossos laços. Ora, toda a sensação é um laço, tanto o prazer como a dor, tanto a alegria como a tristeza. Só se liberta o espírito que, puro de toda a convivência com seres ou com objectos, se aplica à sua vacuidade.
(…) Ao mesmo tempo que remexemos nos nossos males, os dos outros não deixam de nos interpelar. Na época das biografias, ninguém pode encobrir as suas chagas sem que tentemos descobri-las e pô-las à luz do dia; quando não conseguimos fazê-lo, afastamo-nos cheios de decepção. E mesmo aquele que acabou na cruz não é de maneira alguma por ter sofrido por nós que ainda conta aos nossos olhos, mas simplesmente por ter sofrido e soltado alguns gritos tão profundos quanto gratuitos. Porque aquilo que veneramos nos nossos deuses são as nossas derrotas embelezadas.
(…) Mais ainda do que o estilo, o próprio ritmo da nossa vida assenta na honorabilidade da revolta. Repugnando-nos admitir a identidade universal, afirmamos a individuação, a heterogeneidade, como fenómeno primordial. Ora, revoltarmo-nos é postular essa heterogeneidade, concebê-la de algum modo como anterior ao advento dos seres e dos objectos. Se oponho a Unidade, só ela verídica, à multiplicidade, necessariamente enganadora, se, noutros termos, assimilo o outro a um fantasma, a minha revolta torna-se vazia de sentido, essa revolta que, para existir, tem de partir da irredutibilidade dos indivíduos, da sua condição de nómadas, de essências circunscritas. Todo o acto institui e reabilita a pluralidade, e, conferindo à pessoa realidade e autonomia, reconhece implicitamente a degradação, a fragmentação do absoluto. E é dele, do acto, e do culto que lhe é dedicado, que procede a tensão do nosso espírito, bem como essa necessidade de explodirmos e nos destruirmos no cerne da duração. A filosofia moderna, ao instaurar a superstição do Eu, tornou-o a mola real dos nossos dramas e o eixo das nossas inquietações. Chorar o repouso no indistinto, o sonho neutro da existência sem qualidades, de nada serve; quisemo-nos sujeitos, e todo o sujeito é ruptura com a quietude da Unidade. Quem se disponha a atenuar a nossa solidão ou as nossas dilacerações age contra os nossos interesses e contra a nossa vocação. Medimos o valor do indivíduo pela soma dos seus desacordos com as coisas, pela sua incapacidade de ser indiferente, pela sua recusa de tender para o objecto. Daí a depreciação da ideia de Bem, daí a voga do Diabo.
(…) Procurar o sofrimento para evitar a redenção, seguir ao contrário o caminho da libertação, tal é o nosso contributo em matéria de religião: iluminados biliosos, budas e Cristos hostis à salvação, pregando aos miseráveis os encantos da sua desgraça. Raça superficial, se quiserem. Mas não deixa de ser verdade que o nosso primeiro antepassado só nos deixou por herança o horror ao Paraíso. Ao dar um nome às coisas preparava a sua e a nossa queda. Se quisermos remediá-la, teremos de começar por desbaptizar o universo, por retirar a etiqueta que, posta em cada aparência, a eleva e lhe empresta um simulacro de sentido. Entretanto, tudo em nós, até as células nervosas, sente repulsa pelo Paraíso. Sofrer: única modalidade de aquisição da sensação de existir; existir: único modo de salvaguardarmos a nossa perda. E assim será até que uma cura de eternidade nos desintoxique do devir, enquanto não nos aproximarmos desse estado no qual, segundo um budista chinês, “o instante vale dez mil anos”.
Se o absoluto corresponde a um sentido que não soubemos cultivar, entreguemo-nos a todas as rebeliões: elas acabarão por se voltar contra si próprias, contra nós próprios…Talvez recuperemos, então, a nossa supremacia sobre o tempo; a menos que, no extremo oposto, e querendo escapar à calamidade da consciência, nos juntemos aos animais, às plantas e aos objectos, e a essa estupidez primordial de que, por culpa da História, perdemos até mesmo a recordação.
em A tentação de existir, E.M.Cioran, Relógio d’água, 1988
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
E confesso que a razão fica confundida perante o prodígio do amor, da estranha obsessão que faz que esta mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe o nosso próprio corpo, limitando-nos a lavá-la, a alimentá-la e, se possível, a impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma individualidade diferente da nossa e porque representa certos lineamentos de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estão de acordo. Aqui a lógica humana fica aquém, como nas revelações dos Mistérios. A tradição popular não se enganou ao ver sempre no amor uma forma de iniciação, um dos pontos em que o secreto e o sagrado se encontram. A experiência sensual compara-se ainda aos Mistérios, na medida em que a primeira aproximação dá ao não iniciado a impressão de um rito mais ou menos assustador, escandalosamente afastado das funções familiares de dormir, de beber e de comer, motivo de brincadeiras, de vergonha ou de terror. Tanto como a dança das Ménades ou o delírio dos Coribantes, o nosso amor arrasta-nos para um universo diferente, onde, noutros tempos, nos era interdito entrar e onde deixamos de nos orientar desde que o ardor se extingue ou que o prazer se desenlaça. Pregado no corpo amado como um crucificado na sua cruz, aprendi acerca da vida alguns segredos que já se desvanecem na minha lembrança, por efeito da mesma lei que leva o convalescente, depois de curado, a deixar de se encontrar nas verdades misteriosas do seu mal, o prisioneiro posto em liberdade a esquecer a tortura ou o triunfador desembriagado a glória.
.
Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar, Ulisseia, tradução Maria Lamas
Tais pontos de vista sobre o amor poderiam conduzir a uma carreira de sedutor. Se a não segui foi sem dúvida porque fiz outra coisa, aliás melhor. À falta de génio, semelhante carreira requer cuidados e mesmo estratagemas, para os quais me sentia pouco disposto. Essas armadilhas preparadas, sempre as mesmas, essa rotina restringida a perpétuos encontros, limitada pela própria conquista, fatigaram-me. A técnica do grande sedutor exige, na passagem de um objecto a outro, uma facilidade, uma indiferença que eu não tenho relativamente a eles: de qualquer maneira, deixaram-me mais que eu os deixei a eles; nunca compreendi que alguém se saciasse de um ser. O desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada novo amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquistas. Acreditei outrora que um certo gosto da beleza substituiria em mim, a virtude, saberia imunizar-me contra as solicitações demasiado grosseiras. Mas enganava-me. O amador de beleza acaba por encontrá-la em toda a parte, filão de ouro nos mais ignóbeis veios, por experimentar, ao tocar essas obras-primas fragmentárias, sujas ou quebradas, um prazer de único conhecedor a coleccionar barros considerados vulgares. Obstáculo mais sério, para um homem de gosto, é uma posição de eminência nos negócios humanos, com o que o poder quase absoluto comporta de riscos, de adulação ou de mentira. A ideia de que um ser se contrafaz na minha presença, por muito pouco que seja, é capaz de me fazer lamentá-lo, desprezá-lo ou odiá-lo. Sofri estes inconvenientes da minha fortuna como um homem pobre sofre os da sua miséria. Um passo mais e teria aceitado a ficção que consiste em pretender que seduzimos quando sabemos que nos impomos. Mas o nojo ou talvez a parvoíce arriscam-se a começar nesse ponto.
Acabar-se-ia por preferir aos estratagemas bafientos da sedução as simples verdades da libertinagem se a mentira não predominasse também aí. Em princípio estou disposto a aceitar que a prostituição seja uma arte como a massagem ou o penteado, mas já se me torna difícil distrair-me nos barbeiros ou nos massagistas. Nada mais grosseiro que os nossos cúmplices. A olhadela oblíqua do dono da taberna que reserva para mim o melhor vinho, e por consequência priva qualquer outra pessoa de o beber, era já o suficiente, aos olhos da minha juventude, para me desgostar dos divertimentos de Roma. Desagrada-me que uma criatura julgue poder gozar antecipadamente o meu prazer, prevê-lo, adaptar-se mecanicamente ao que ela supõe ser a minha escolha. Este reflexo imbecil e deformado de mim mesmo que um cérebro humano me oferece nesses momentos, far-me-ia preferir os tristes efeitos do ascetismo.
.
Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar, Ulisseia, tradução de Maria Lamas.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Meditação Vipassana.
10 dias para aprender a técnica.
Bastante exigentes, mas também
de uma alegria hilariante, vinda não sei de onde de dentro de mim.
É bom não estar à espera de nada,
não nos apegarmos a qualquer manifestação boa ou má.
Respiramos,
um extenso sentido de liberdade,
de alegria, de doçura mental, de luminosas emoções.
Não é uma receita,
é algo que se vive,
inesperadamente,
como se respira.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
.
O que sinto. Eis de novo quando comecei este blogue. Penumbra. Sentimentos intensos que não encontraram o seu meio de expressão. Coração sobressaltado por uma ansiedade revelada na brutal condição de ser recusado. Amor que foi. Amor que ficou. Demoro-me a pensar no que ainda poderia ser. Exercício masoquista de espremer o amor gota a gota, como se estivéssemos a sôro. Acamados na nossa impotência em lidar com a morte do amor. Não importa chamar alguém. Não existe nada para preencher esse vazio. Só um olhar vago, em que tudo, de repente, parece parar. Estaremos no céu? Não sinto asas, não sinto passos. Não encontro movimento nos meus gestos. Sorrio levemente. Sinto uma nuvem fresca a entrar na minha boca. Será um beijo? Ao menos aqui está fresco, e sinto uma paz estranha, como se eu tivesse desistido de sentir o quer que fosse. Fecho os olhos. O espaço celestial. Vejo os teus olhos. A tua boca. O teu sorriso. Vive-se melhor a sonhar, mas quando queremos agarrar o nosso amor, sentimos que ele nunca se tornou completamente real. Tudo vai e vem, num movimento contínuo de ansiedade e satisfação. Exigimos demasiado. Agarramo-nos às frustrações como condecorações de guerra. Nunca damos tudo, por pensarmos no contexto perfeito, por medo de não sermos compreendidos no nosso âmago. Tudo obedece à sua verdadeira natureza: de mutação constante, de impermanência. Nada podemos fazer para condicionar o que não é. Mesmo um sonho. Preciso descansar, só isso. Depois, irei acordar. Quem sabe se conseguirei ver as coisas como elas são. Se sonho. Se amo. Se vivo.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Gostava de viver melhor o essencial, de usufruir da sabedoria que permite degustar cada momento, e esquecer a sua duração, a sua perda, o seu brilho. Mas existem momentos que queremos fazer parar no tempo, como que expecados e deslumbrados com a sua beleza e perfeição. Não pensamos, que esse momento que perdura, no fundo é a morte, a alegria esquelética, o infinito glaciar.
.
4-8-2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
"O romance Der Mann ohne Eigenschaften costuma ser traduzido por O homem sem qualidades; entretanto, como a palavra Eigenschaft agrega outras sutis significações, ele também poderia ser traduzido por O homem sem qualidades definidas ou por O homem indefinido. Com tal título, Musil evoca uma dupla posição: uma, genérica, contrária à cruel ideologia pragmática do selfmade-man norte-americano, que incita à selvagem competição; a outra, específica, a favor do teor de indeterminação que caracteriza a introspectiva existência de seu protagonista. Apesar de possuir, em potência, todas as qualidades para se tornar um homem de qualidades, em acto, Ulrich não o faz e não parece querer fazê-lo.
Ele resiste à alienação que, não raro, deriva de uma excessiva divisão social do trabalho e de uma excessiva especialização do saber; nega-se a comprar uma das inúmeras e ilusórias receitas de felicidade vendida por seus contemporâneos. Não deseja casar-se e constituir família, mas poderia muito bem conquistar uma bela mulher e com ela ter belos filhos; não deseja fazer fortuna, mas poderia, devido à sua rara inteligência e às oportunidades que lhe são apresentadas, enriquecer-se, deixar de trabalhar e desfrutar do cobiçado luxo que a riqueza proporciona; não deseja tornar-se célebre, mas poderia muito bem executar fabulosas obras literárias ou filosóficas que despertassem a admiração e a inveja; não deseja ser qualquer coisa e, talvez justamente por isso, pode ser tudo. Para desgosto de seu pai, um velho juiz, um homem com qualidades, que, na sua ingenuidade de legalista, o impulsiona ao trato e ao comércio com a alta sociedade, ele não possui nenhum desses desejos engendrados e intensamente operantes na moderna sociedade burguesa, mesmo que se mantenha, socialmente, um burguês. Num mundo permeado de oportunismo e de hipocrisia, ele é, paradoxalmente, o único a manter-se íntegro, por mais que não acredite em nada do que faz. Discreto e reservado, ele participa da vida em sociedade e participa mesmo sabendo —ou intuindo saber— que tudo é extremamente patético e inútil. Os motivos que o levam a assim proceder não se relacionam a uma cômoda resignação diante das opressivas forças exteriores, mas a um consciente experimento. Como nada o prende a nada, o engajamento é para ele um pretexto, um pretexto para explorar a sua própria natureza; segundo suas próprias palavras, esta é “(...) uma máquina que desvaloriza constantemente a vida!” (MUSIL, 1989, p. 633.) Cumpre a Ulrich despersonalizar-se, desumanizar-se, tornar-se, em cada fecundo momento, um outro; daí ele projectar viver em contemplação das suas próprias acções e das acções alheias, “viver como se lê”3: viver uma “vida por hipótese”, para usar o conceito de sua juventude, uma vida de “ensaio”, para usar o conceito de sua maturidade:
A vontade de sua própria natureza, de se desenvolver, proíbe-o de crer no acabado; mas tudo o que enfrenta parece ser acabado. Ele pressente: essa ordem não é tão sólida quanto finge ser; nenhuma coisa, nenhum eu, nenhuma forma, nenhum princípio é certo, tudo se encontra numa transformação invisível e incessante, no instável há mais futuro do que no estável, e o presente não é senão uma hipótese que ainda não superamos. O que ele poderia fazer de melhor senão manter-se livre desse mundo, naquele bom sentido com que um pesquisador se mantém livre diante dos factos que o querem seduzir e fazer acreditar neles precipitadamente?! Por isso, hesita em fazer algo consigo mesmo: um carácter, uma profissão, uma maneira sólida de ser, são conceitos em que já aparece a caveira que por fim sobrará de sua pessoa. Ele procura compreender-se de outra forma; com inclinação para tudo que o multiplique interiormente, ainda que moral ou intelectualmente proibido, sente-se como um passo livre em todas as direcções, mas que leva de um equilíbrio a outro equilíbrio, seguindo sempre em frente. E se alguma vez pensa ter a idéia certa, percebe que uma gota de indizível fogo caiu no mundo, e sua luz faz tudo parecer diferente./ (...) isso se transformou em Ulrich numa idéia que já não ligou à incerta hipótese, mas, por determinadas razões, ao conceito singular de ensaio. Mais ou menos como um ensaio examina um assunto de muitos lados em seus variados capítulos, sem o analisar inteiro (...), ele acreditava ver e tratar corretamente o mundo e a própria vida. O valor de um acto ou de uma qualidade, sim, até sua natureza e essência, lhe pareciam dependentes das circunstâncias que os rodeiam, dos objetivos a que servem, em suma, do todo constituído ora assim ora assado, ao qual pertencem. De resto, isso é apenas a simples descrição do facto que um assassinato nos pode parecer crime ou acto heróico, e a hora de amor a pluma caída da asa de um anjo ou de um ganso. (...) Desta forma, todos os acontecimentos de ordem moral ocorriam num campo de força cuja constelação lhes conferia sentido, e continham o bem e o mal como um átomo contém possibilidades de combinações químicas. (...) todos os factos morais lhe pareciam, em seu significado, funções dependentes de outras. Assim, surgia um infinito sistema de relações em que não havia mais quaisquer significados independentes como a vida comum os atribui, numa primeira aproximação grosseira, aos actos e qualidades; o que parecia ser sólido tornava-se pretexto permeável para muitos outros significados, o que acontecia tornava-se símbolo de algo que talvez nem acontecesse, mas que era sentido; e o ser humano enquanto resumo de suas possibilidades, o ser potencial, o poema não escrito de sua existência, opunha-se ao ser humano como texto, realidade e caráter. No fundo, nessa concepção Ulrich sentia-se capaz de qualquer virtude ou maldade (...). (MUSIL, 1989, p. 180-181.)
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
O em que pousaste
Sobre o meu (braço,)
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento.
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?
.
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...
.
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...
.
Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
.
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.
.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.
.
9-5-1934
.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
.
(re)conhecimento, pois aquele que ama não conhece daquele que é amado nada mais do
que o facto que ele está sendo, de uma maneira indescritível e através de uma actividade
interior, recolocado pelo outro. [...] Por isso, não existe a verdade para os amantes; ela
seria uma rua sem saída, um fim, a morte do pensamento.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
...Disco maravilhoso. Em M'Bifé (je t'aime)Blues, ela diz: "Je t'aime jusqu'a l'amour".
Eu amo-te até ao amor. "Até ao amor", parece que não existe mais nada para amar para além do amor. Aprendi com a Teresa a amar para além de mim, daquilo que eu achava que seria amar, ou o que amamos numa pessoa para além das proximidades culturais, intelectuais, estéticas. E temos tendência em valorizar o amor através de coincidências metafísicas, físicas e poéticas. O amor exprime-se de maneira invisível, através de um processo químico impossível de controlar ou descrever, e revela-se, para nossa surpresa, quando não pensamos, nem sentimos o amor, como sendo algo do nosso eu consciente. O amor é simplesmente amor, nada mais que amor.